«O Arquivo Amnéstico» Punkto # 03 — Nostalgia, Porto, Maio 2013.

Camuflar os valiosos originais no meio das outras imagens, como é sugerido por um dos funcionários que guarda a Colecção é, nesse sentido, submetê-los ao indomesticável e devolver-lhes o direito ao seu sentimento nostálgico: serem vistos sem os agenciamentos do mercado, sem a influência do seu autor ou a calendarização ditada pelo Museu, numa incessante e original circulação
 É extremamente simples. De facto, cegamente óbvio. Nós temos algumas fotografias valiosas e por isso, em vez de as deixarmos fechadas convenientemente, num pequeno quarto, para que os Americanos as possam vir recolher… espalhamo-las por entre a colecção… ‘perdemo-las’ no meio de todas as outras imagens — Tenta encontrá-las entre dez milhões de fotografias se não souberes onde procurar! É como tentar encontrar o tamanho certo de um pedaço de feno num palheiro.
 
shooting the past, Stephen Poliakoff , 1999.
 
O termo arquivo, que deriva do grego arkheîon, designa o espaço no qual os documentos são guardados e constitui, como indica Jacques Derrida um desejo de memória confiado a
uma casa, um domicílio,uma morada, no qual os magistrados superiores, aqueles que comandam, têm o poder de o interpretar.
 

tarefa dos que guardam o arquivo não é por isso, apenas a de garantir a sua longevidade, mas sim a de fazer sobrelevar a sua visibilidade e impulsionar uma hermenêutica dos objectos nele depositados.Ser leitor e espectador de um arquivo obriga a uma escolha e, como se referiu no início deste texto, uma consciência política e crítica que substituía o papel de observador passivo pelo de inquiridor activo. Uma tarefa,exigente difícil , inequivocamente partilhada por aqueles que têm a responsabilidade de guardar as imagens e de as abrir à instabilidade das perguntas. Quando o entendimento do arquivo se circunscreve a uma descrição e normalização de características físicas e a uma inscrição da imagem como mais um documento, perde-se o privilégio da evidência e a sua capacidade de agir sobre a cultura onde se insere. Perde-se o direito a um lugar que trate a imagem fotográfica e a memória pública como de todos.

——————————————-

A nostalgia, que durante muito tempo e ainda hoje muitas pessoas chamam doença do país, caracteriza-se pela necessidade imperiosa daqueles que a sentem de voltar ao seu país e rever os locais da sua infância; ou seja, pela necessidade urgente de reencontrar o seu primeiro domicílio. Quando impedidos de o fazer, são atormentados pelo desgosto, insónias, falta de apetite e outros sintomas graves.

─ Philippe Pinel, “Nostalgie” Médecine, Encyclopédie Méthodique

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s