Comparam-se modos mas esquecem-se lugares e tempos distintos.

Ps: A presente reflexão recorre a bastantes citações de artigos diferenciados. É um encadeamento de ideias que levantam uma questão e não oferecem resposta. Uma analise breve para um assunto de tamanha profundidade.

Na historia do ensino académico português esta registado que por meados do século XX, assistia-se ao maior movimento estudantil de todos os tempos em território nacional: “A Crise académica de 1969”. Reclamava-se uma mudança política e social.

A Universidade Portuguesa apresentava características que a classificavam como uma instituição dócil do regime fascista. Baseada numa estrutura interna hierarquizada e autoritária, quando não policial, era selectiva do ponto de vista ideológico e político, …

Exigia-se modernização e liberdade de expressão. Questionava-se o regime ditatorial. Os estudantes envolviam-se politicamente.

Hoje, este espírito inconformista é saudado em qualquer argumento que sustente uma reflexão crítica á minha geração estudantil. Responsabilizam-nos por não fazermos valer o esforço do passado. Pedem-nos uma luta. Apelam á participação cívica, política e associativa.

Comparam-se modos mas esquecem-se lugares e tempos distintos.

 Na verdade, a herança histórica desse legado geracional, até por ter sido em boa medida veiculada por alguns dos seus antigos protagonistas, acabou por dar lugar a uma espécie de “congelamento” de uma unidade imaginária dessa geração em torno do chamado “espírito de 68”, com isso construindo uma identidade histórica fictícia e dotada de um peso desmesurado, que se tornou impossível de suportar pelas gerações posteriores (Cardoso, 2005).

Não pretendo efectuar juízos de valor sobre o modo como fomos e somos, o que fizemos e não fazemos, mas analisar as diferentes condições em que estas gerações actuaram e actuam.

Em Coimbra os estudantes sentiam na pele o Estado repressivo. A PIDE batia-lhes á porta. Havia um inimigo concreto – palpável e visível.

“Um poder disciplinar que procura colocar o ser humano debaixo de um colete-de-forças de ordens e proibições é totalmente ineficiente”.

Eles resistiam, revoltavam-se e protestavam. Tinham uma causa, um porque e um motivo. Remava-se em grupo e para o mesmo lado.

Conquistaram a liberdade que é nossa.

“ Pelo contrário, é significativamente mais eficiente assegurar que as pessoas se submetam de espontânea vontade à dominação. A eficácia que define o actual sistema advém do facto de operar não tanto através da proibição e da privação, mas procurando agradar e satisfazer.  

Hoje expomo-nos de livre vontade. É precisamente este sentido de liberdade que torna qualquer protesto impossível. Ao contrário daquilo que acontecia nos dias do censo, hoje dificilmente alguém protesta contra a vigilância. O livre desnudamento e a auto-exposição seguem a mesma lógica da eficiência como livre auto-exploração. Protesta-se contra quê? Contra si próprio? “

“Hoje, o poder que estabiliza o sistema assume um disfarce amigável e smart, tornando-se invisível e inatacável. O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua submissão. O sujeito pensa-se livre. Esta técnica de dominação neutraliza a resistência de modo eficaz.”

Hoje expomo-nos de livre vontade. É precisamente este sentido de liberdade que torna qualquer protesto impossível. Hoje dificilmente alguém protesta contra a vigilância.

Segundo Byung-Chul Han “…hoje a revolução já não é possível.”

O poder que estabiliza o sistema já não funciona através da repressão, mas através da sedução – isto é, cativando. Hoje, não há um adversário concreto, um inimigo, que nos retire a liberdade e ao qual se possa resistir. Já não é visível, como no caso do regime ditatorial.

O estudante oprimido é hoje um estudante livre. Um ser narcisista de uma geração selfie que se explora a si próprio, em luta por um futuro individual de sucesso. Vive uma luta interna consigo mesmo e culpa-se a si pelas suas falhas.

“Nenhuma massa revolucionária pode surgir de indivíduos exaustos, depressivos e isolados.”

O conformismo generalizado prevalece – assim como a depressão e o esgotamento. As pessoas agem violentamente sobre si próprias em vez de procurarem mudar a sociedade.

A agressão dirigida para fora, que implicaria a revolução, foi substituída pela auto-agressão dirigida para si.

No neoliberalismo não tem sequer lugar a “alienação” do trabalho. Hoje, mergulhamos euforicamente no trabalho – até ao esgotamento. O primeiro nível da síndrome de Burnout [esgotamento] é a euforia. Esgotamento e revolução excluem-se mutuamente.

As associações de estudantes competem entre si e dentro de elas mesmas. É tudo contra todos, por um lugar melhor na pose fotográfica. O movimento em massa é hoje impossível. Existem sim casos isolados e solitários de incapazes em se fazerem ouvir. Não há solidariedade nem sentido comum.

Veja-se no design por exemplo:

É esta incapacidade de abstrair as coisas excepto em termos de génio, de singularidade, de talento individual que leva a todas as acusações caricatas de plágio que houve ao longo do último ano — a mais caricata de todas a que confrontou a imagem da Câmara do Porto com uma semelhante produzida em Berlim, que rapidamente se alastrou à de uma escola de design em Praga e a inúmeros projectos semelhantes no Behance. Em vez de se olhar para estratégias de composição semelhantes numa mesma época, concluindo que se tratava de um estilo comum, as coisas rapidamente se crisparam, assumindo um plágio. Talvez seja este o melhor símbolo de uma sociedade profundamente individualista mas que tende a produzir apenas um único tipo de indivíduo — falo como é evidente da sociedade neoliberal e do empreendedor.

Hoje, qual é a nossa revolução? Qual deve ser o nosso grau de envolvimento politico?

Sem uma luta concreta só vamos criticar casos pontuais.

Os temas especificamente “jovens” estão resolvidos, na política portuguesa. O serviço militar obrigatório acabou. Os temas “pós-materiais” avançaram (aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo). Desse ponto de vista, as propinas foram, provavelmente, o último dos temas que os jovens conseguiram trazer para a agenda política.

Mas existem outros temas, que o discurso político exclui, e são relevantes para as novas gerações de eleitores. Na Europa do Norte, surgiram movimentos pela liberdade de partilha na internet – representados pelos “partidos piratas”. Em Portugal, pouco se ouve falar dessa reivindicação”

Qual é a nossa luta?

 

 

Bibliografia:

https://www.publico.pt/politica/noticia/os-jovens-estao-a-desistir-da-politica-e-a-politica-parece-prescindir-deles-1721887

http://www.revistapunkto.com/2015/12/porque-e-que-hoje-nenhuma-revolucao-e.html

 

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