A intervenção como comodidade

“Pedimos desculpa por esta democracia, a ditadura segue dentro de momentos.” Esta poderia ser uma frase escrita numa parede em Portugal durante os últimos anos, mas é apenas uma de inúmeras inscrições político-humorísticas nas ruas portuguesas do período pós-25 de Abril e condensadas em “O livrinho vermelho do galo de Barcelos” (1975). Publicações como esta são úteis porque funcionam como importantes arquivos históricos de intervenção política no espaço público. No entanto, durante a última década, escrever e comercializar frases, aforismos e banalidades tornaram-se numa moda persistente, superficial e decorativa, seguindo um fenómeno global.

 

Em 1987, através de “I shop therefore I am”, a designer e artista americana Barbara Kruger popularizava o seu trabalho político e feminista, recorrendo ao uso de tipografia espessa de forma a montar frases e slogans normalmente sobrepostas a imagens a preto e branco. O artista Ed Ruscha é outra figura incontornável deste tipo de abordagem, pintando consistentemente misteriosas frases sobre paisagens desde os anos 60. Mais tarde, o designer inglês Anthony Burrill começou nos anos 90 a produzir populares serigrafias tipográficas cuidadas mas de composição austera e genérica, contendo frases como “Work hard and be nice to people“. No início dos anos 2000, o artista de arte urbana Banksy tornou-se uma celebridade anónima à escala mundial e os seus trabalhos — frequentemente acompanhados de frases previsíveis — transitaram das ruas para galerias de arte, sendo vendidos a preços exorbitantes para uma reduzida audiência e mais tarde reproduzidos em massa nos mais variados suportes. Nesta mesma altura, o famoso cartaz inglês “Keep calm and carry on” (1939) foi redescoberto e a proliferação de frases encaixilhadas nas paredes tornou-se uma moda de decoração global.

 

Em Portugal, o designer Miguel Januário começou em 2005 o projecto maismenos, criando um símbolo que ocupou fachadas de edifícios e paredes da cidade do Porto, povoando-as com uma ambiguidade pertinente e provocadora. Mas o que era uma intervenção urbana foi transformado em efectiva marca comercializável, adaptando lemas que eram pintados em muros ou fotocopiados a suportes mais “nobres” tais como azulejos encaixilhados. Assim, palavras óbvias alteradas, aglutinadas, ou siglonimizações como “capitaclysm” podem ser vendidas em galerias de arte, oleando precisamente o sistema que originalmente pretendiam criticar. A ilustradora Wasted Rita sublinha a moda de trivialidades impressas entre espaço público e galerias, com almofadas, t-shirts, sacos e capas de telemóvel. Apesar de uma constante previsibilidade deste tipo de abordagens — apontada por exemplo por Charlie Brooker — ao ver-se a gigante empresa americana Wallmart vender telas impressas a dizer “Destroy Capitalism”, o círculo canibalista popularizado por Banksy está há muito completo. Sendo o designer Stefan Sagmeister uma figura central da última década e meia na produção de listas de conselhos paternalistas ensimesmados, a moda de partilhar frases quase-profundas, esforçadas e quase-humorísticas sem contexto é transversal a artistas, designers e ilustradores.

 

Numa era de “sofativismo”, em qualquer secção “home” de lojas de decoração (em inglês vende e fica sempre melhor), o cliente pode comprar activismo pronto a pendurar na parede. Gera-se assim um clima acrítico onde expor com Banksy é, supostamente, um indicador de qualidade e relevância. Mesmo numa altura em que a cultura em Portugal pode talvez começar a pensar que algum dia voltará a ter qualquer tipo de apoio, é importante que as intervenções no espaço público permaneçam nesse campo de discussão. Para que isso aconteça, os designers e ilustradores terão que colocar-se numa posição de solidariedade, não de autoridade indulgente com marca registada — explicando-nos a todos o que está realmente a acontecer e como nos devemos comportar — através da comodificação da intervenção. “In English”, claro.

 

 

Francisco Laranjo é designer gráfico, investigador e editor da revista Modes of Criticism

http://p3.publico.pt/cultura/design/19396/intervencao-como-comodidade

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