R5- Taxi Driver (1976)

Em resposta ao exercício R5, no âmbito da cadeira Design de Comunicação IV, proponho-me a analisar uma sequência do Filme Taxi Driver (1976).

Inicia-se aproximadamente ao minuto 00:04:50 e termina ao minuto 00:06:40. Considero acertado apreender este espaço temporal como uma peça só, que apesar de realizado em espaços distintos, (a saída da oficina de táxis, a casa de Travis Bickle e o seu táxi em deambulação pelas ruas de New York, respectivamente) é bastante demarcado pelo instrumental que flui em paralelo ao monólogo do personagem principal. Assiste-se uma harmonia perfeita entre a musica de Bernard Herrmann, a voz de Travis e a sequência de imagens.

Este momento inicial do filme é bastante sugestivo e contextual.

Inicialmente, revela um personagem viciado em álcool que se faz acompanhar de um cantil de whisky enquanto caminha para nós – espectadores.

De seguida, já em casa, a câmara apresenta-nos uma leitura do espaço em semi-circulo, da esquerda para a direita, ao ritmo da melodia. Surge uma voz que é imediatamente denunciada pelo reflexo de Travis no espelho. Este enquadra-nos no tempo, “May 10” e agradece a Deus pela chuva que lavou as ruas, uma remeça contraditória ao que nos é apresentado: um espaço sujo, velho, amontoado de lixo, desorganizado. Portanto alguém incoerente e solitário. Continua e conclui a rotação (com o auxilio de um carro em andamento que acompanha o movimento) apresentando Travis sentado à mesa. Este escreve no diário as palavras proferidas, fazendo-se acompanhar de uma Coca-Cola (que o ajuda a manter acordado) e um hambúrguer McDonald Quarter Pounder. Estamos na década de 70, quando se assiste a uma internacionalização do fenómeno fast food, ao qual Taxi Driver dá o seu contributo. (Mais a frente, já no táxi, vemos também outdoors da Coca-Cola). A lata mostra-se bastante contemporânea aos nossos dias e o packing do hambúrguer deixa alguma nostalgia, tal como o das pipocas, que aparece em outro momento do filme. Travis conta-nos que está com uma grande carga horária de trabalho, mas deste modo mantém-se ocupado e faz render o seu problema com o sono. Indicia alguma depressão que mais tarde se vem revelar com gravidade.

Para finalizar a peça, o realizador ilustra-nos o seguimento das palavras de Travis. Apresenta-nos o táxi Checker revelando-nos os seus mais íntimos detalhes. Uma cena que poderia ser perfeitamente um anuncio publicitário ao automóvel. O táxi Checker é recorrente em alguns filmes mas aparece aqui como nunca antes visto: de fora para dentro e o seu inverso. Tem como plano de fundo as ruas de Nova York que se tornam motivo principal da observação de Travis. Uma cidade que não dorme, com bastante movimento e iluminada pelos outdoors publicitários. Assumimos o olhar atento de Travis e repara-se os movimentos mais obscuros. Multicultural, a periferia de Nova York é assim despida no diário de Travis: “All the animals come out at night – whores, skunk pussies, buggers, queens, fairies, dopers, junkies.” Uma descrição que lembra-me o poema falado de Viriato Ventura na musica “Slides (retratos da cidade branca)”. Ao ritmo de uma prostituta que caminha no passeio, Travis acompanha a sua marcha que se cruza com outras ilegalidades. A criminalidade aumentava nas ruas. América estava em crise. E Taxi Driver regista-o, tal como Warriors (1979) o fez. Taxi Driver é um testemunho não só da história do cinema mas do ambiente social, político e económico sentido nos anos 70 em New York. “São memórias de uma cidade onde também se lutava para sobreviver mas que era radicalmente diferente, perigosa, desesperada, antes de se gentrificar, o que significa apenas que se tornou extrema de um outro modo. A música, o cinema e a violência da década de 70 compunham uma atmosfera comum que tanto os muito ricos como os muito pobres respiravam.” Uma sociedade que Travis condena, “Sick, venal”, mas na qual ainda deposita alguma esperança, “Someday a real rain’ll come and wash all this scum off the streets.” Algo tão trágico e dramático como uma “real rain” é necessária para lavar as ruas e retomar o equilíbrio. Travis indicia assim o que será o fim do filme. É um homem sem medo que não descrimina os seus clientes (ao contrario de alguns colegas de trabalho) e está disposto a frequentar até as zonas mais problemáticas,” I go all over. I take people to the Bronx, Brooklyn, I take ‘em to Harlem. I don’t care. Don’t make no difference to me. It does to some. Some won’t even take spooks. Don’t make no difference to me”

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