A culpa não é vossa, é a perversidade do Facebook.

Estou no Facebook. Não estou sozinho. Estamos todos. Nós online, outros ofline, mas estamos. Ou somos? Não sei. Talvez: pareçamos.

Hoje, 14 de Novembro de 2015, no “feed de notícias” predominam as alterações de foto de perfil. Encorajados pelo novo filtro do Facebook, alguns utilizadores apresentam a sua imagem pessoal sobreposta pelas cores da bandeira francesa em resposta aos atentados em Paris. Uma resposta instantânea e desprovida de qualquer reflexão ética e política.

Imediatamente surgem reacções a este fenómeno. Aponta-se o dedo àqueles que “experienciaram” o novo filtro. Acusam-nos de apropriação a um evento em prol de interesses individuais, nomeadamente: o sentimento de pertença a um grupo de solidariedade, vazio de qualquer efeito directo no mundo real, que é gratificado com “likes”; A desculpa ideal para alterar a foto de perfil com garantias de sucesso, se possível captada em Paris. Em jeito de – eu estive lá. Assuma-se que sucesso é sinónimo de “likes”.

Os acusados defendem-se garantindo que é apenas um ato simbólico de manifestação solidária perante as vítimas, sem qualquer intenção narcisista.

Eu prefiro apontar o dedo á empresa Facebook.

Reconheça-se o seguinte: o Facebook é utilizado por uma grande maioria da população mundial. Mais do que uma rede social, é uma fonte de informação. Quando este cria uma “experiência” bastante refutada deve assumir as suas responsabilidades.

Não é a primeira vez que esta plataforma disponibiliza um filtro para alterar a foto de perfil em prol de uma causa. Fê-lo com o casamento gay. E agora repete-se num contexto diferente. Uma iniciativa que merece ser analisada.

  1. A reacção foi imediata ao acontecimento. Não abriu espaço para a reflexão e clarificação deste. Ainda ecoavam os tiros no Bataclan e as fotos já se alteravam. Os utilizadores associam-se a uma causa, dita nobre, sem a conhecer nem perceber as suas repressões. Agem por impulso e sobre pressão. O utilizador que aderiu a este movimento foi o mesmo que no momento de reacção repôs a sua foto de perfil.
  2. Conduz a uma deturpação da realidade. Os ataques terroristas não foram só em França, mas não é isso que a bandeira nos conta. Compreendo que foram a nação mais próxima de nos e por isso aquela a que estaremos mais sensibilizados. Mas quando se trata de vidas humanas elas valem o mesmo em qualquer parte do Mundo. E a razão tem de prevalecer sobre a emoção.
  3. Contribui para a apatia e perda de identidade de cada utilizador. Esta forma de prestar homenagem, bastante formatada e á distância de um “click”, anulou outras possíveis que não se chegaram a manifestar e teriam mais a acrescentar. Mesmo o silêncio. Serão estes os testemunhos desta tragédia? Este movimento anula-se no momento em que actualizarmos a foto de perfil. Reparem a sua efemeridade.
  4. É ousar pedirem-nos para interpretar a “foto de perfil” deslocada do seu registo habitual: a imagem pessoal do utilizador á qual normalmente são tecidos comentários de cariz engrandecido. Não peçam há foto de perfil para revelar deste modo a sua nobreza. O meio é a mensagem.

Para finalizar, vale a pena também tecer alguns comentários á perversidade da estratégia de comunicação adoptada para conquistar a aderência do público ao novo filtro:

  1. Dirige-se directamente ao utilizador no momento em que este se apercebe que o seu “amigo” alterou a foto de perfil. Portanto, na foto de perfil alterada e com resultados à vista. Ou seja, esta oportunidade só nos é concebida se um dos nossos amigos aderir. Repartindo assim a sensação de risco e aumentado o sentimento de pertença a um grupo. Estamos juntos e eu vim a partir de ti. Se nenhum amigo tivesse aderido eu nunca iria saber deste filtro e? Estávamos juntos.
  2. “Muda a tua foto de perfil para demonstrar apoio a França e aos parisienses.” É tão explícito que escusa grandes juízos de valor. Queres apoiar? Queres demonstrar? Muda – é o que tens de fazer.
  3. O icónico logótipo está também a fazer uso do filtro, exercendo assim pressão sobre o utilizador. És facebook? Então deves estar assim. Estamos todos, vais ficar de fora?
  4. Apresenta-se como uma experiencia. A palavra “experimenta”, que funciona como um botão directo para a mesma, transmite novidade, algo que podemos testar e só depois aprovar e partilhar com os outros. Ou seja, avaliar a transformação exercida pelas cores da bandeira sobre a nossa foto.

Portanto, para ti Facebook:

Tens cada vez mais um papel ético, político e social a desempenhar sobre a sociedade online. Papel esse que deve ser cuidado e responsável, sem comprometer os seus usuários e livre das acusações anteriormente referidas. Hoje, dou-te um dislike.

screen-shot-2015-11-14-at-9-03-08-am

fonte da imagem: http://observer.com/2015/11/facebook-asks-users-to-support-france-with-profile-picture-filter/

Anúncios